SEGURANÇA
O debate sobre assuntos de Segurança ampliou-se de modo a englobar questões como a extrema pobreza, o crescimento desordenado das populações e os fluxos de imigração ilegal. Assim, a possibilidade de guerra entre dois ou mais países tornou-se menos provável e ameaçadora, em comparação aos riscos às seguranças ambiental, militar e econômica de um Estado (Wyn Jones, 1995). Na América do Sul, portanto, os principais problemas não se configuram como “de” fronteira, mas posicionam-se “na” fronteira (Medeiros Filho, 2010). A diferença está no fato de não se tratarem de questões exclusivas de Defesa, mas sim de Segurança.
As áreas de fronteira definem-se como pontos focais de problemáticas concernentes à soberania nacional e à criminalidade transnacional (Andrade e Camargo, 2018). No que se refere ao espaço de atuação das forças armadas e de segurança pública, existe a necessidade de adequação à peculiaridade das dinâmicas e práticas criminosas. No referido cenário, evidencia-se também uma das principais complexidades: para a elaboração e implementação de políticas de Segurança, necessita-se de coordenação da diversidade de atores dos três níveis de governo.
Nesse sentido, o decreto nº 12.038 de 29 de maio de 2024 instituiu a Política Nacional de Fronteiras e o seu Comitê Nacional, os quais visam à integração das ações do Poder Executivo federal com entes federativos e instituições privadas nos eixos de segurança, desenvolvimento sustentável, integração regional, direitos humanos, cidadania e proteção social nas fronteiras brasileiras.Em vista disso, portanto, o PDIFF-AP oferece diagnósticos e proposições cuja finalidade é o apontamento de possíveis políticas públicas relativas à Segurança e aos demais setores analisados. Em complemento ao objetivo de identificar e mapear as forças, fraquezas, oportunidades e ameaças relacionadas à segurança na faixa de fronteira amapaense, a temática em análise dialoga transversalmente com os setores de Comunidades Tradicionais, Meio Ambiente e Infraestrutura.
Ao longo do diagnóstico, serão contextualizados os cenários da Segurança em escala nacional, regional (Amazônia Legal) e estadual, com atenção voltada aos fenômenos relativos ao tráfico de drogas e às facções criminosas. A questão da violência, por sua vez, será adotada como unidade de análise, com enfoque especial à violência contra a mulher e à violência sexual contra crianças e adolescentes, além da especificidade da violência contra comunidades tradicionais. Discutir-se-á também os fluxos ilegais de migração na fronteira franco-brasileira, fenômeno considerado recente e em latência.
SEGURANÇA NO CONTEXTO DA AMAZÔNIA LEGAL
É notável o avanço do crime organizado na Amazônia Legal, o que se revela através da imponência do narcotráfico na região e da escalada de crimes ambientais decorrentes das atividades criminosas. A destacada presença de facções na região tem levado a um quadro em que a violência e os crimes transnacionais se sobrepõem com práticas ambientais ilícitas, a exemplo da extração ilegal de madeira e minérios. Não se conta, entretanto, com um combate efetivo das instituições de Segurança Pública amazônicas, nem com um nível de integração interinstitucional capaz de mitigar as referidas problemáticas (FBSP, 2023).
A região Norte é considerada central nas dinâmicas e fluxos de rotas do tráfico internacional de drogas, principalmente pela proximidade geográfica a países latino-americanos nos quais há grande produção de cocaína (Bolívia, Colômbia e Peru), em especial os estados de Rondônia, Amazonas e Acre, os quais compartilham tais fronteiras (Ipea, 2023). Estima-se que pelo menos dez organizações criminosas internacionais atuem nas áreas de fronteira da região, em parceria com grupos criminosos brasileiros e engajadas nas disputas de rotas para o tráfico de drogas dentro do território nacional (Ipea, 2024).
Nesse sentido, evidencia-se um intenso controle territorial e econômico da Amazônia por organizações criminosas (cuja atuação é exercida, principalmente, dentro de presídios); o que corrobora através da constatação de que 13 das 30 cidades mais violentas do país encontram-se inseridas na Amazônia Legal (Instituto Igarapé, 2022).
Por outro lado, o fortalecimento das organizações criminosas no país explica-se pelo redirecionamento institucional experimentado durante os quatro anos do governo Bolsonaro, a exemplo do controle político de instituições como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), além de interferências nas composições internas da Polícia Federal (Couto, 2024).
Em relação aos esforços por parte dos níveis de governo no concernente às fronteiras do país, pode-se destacar a Estratégia Nacional de Segurança Pública nas Fronteiras (ENAFRON), iniciativa federal desenvolvida a partir de 2011, cujo objetivo é a consolidação de parcerias com os órgãos de segurança pública dos estados e municípios brasileiros situados na faixa de fronteira, com a finalidade de fortalecer a prevenção e o combate a atividades ilícitas transfronteiriças.
SEGURANÇA NO CONTEXTO GERTAL NO AMAPÁ
Em números proporcionais, o Amapá é o estado mais violento do país, com taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) de 69,9 por 100 mil habitantes (513 MVI em 2023) (FBSP, 2024). Além disso, ocupa o primeiro lugar em letalidade policial, com taxa de 23,6 mortes a cada 100 mil habitantes, o que corresponde a 33,7% das MVI do estado (mais que o dobro da média nacional de 13,8%). Nesse ranking, mantém posicionamento entre os três primeiros estados com as maiores taxas de letalidade policial desde 2015, com destaque na primeira posição há quatro anos (FBSP, 2016-2024).
No primeiro semestre de 2024, a Segurança Pública do estado apresentou redução de 32% nas ocorrências de MVI, com 119 registros. No mesmo período de 2023, foram identificados 175 crimes violentos letais intencionais. A queda no índice é atribuída à intensificação do combate à criminalidade, à nomeação de novos agentes de Segurança Pública e a maiores investimentos na área (Amapá, 2024).
No que diz respeito às MVI no estado, trata-se de um fenômeno o aumento da instrumentalização das armas de fogo pelos homicidas. Com participação em 39,77% dos homicídios em 2010, o percentual de uso de armas de fogo alterou-se para 59,61% em 2014, com pico de 63,51% em 2019 e 57,36% em 2020. Anteriormente, era predominante o emprego de “objetos cortantes, penetrantes ou contundentes” (como facas). Segundo os autores, em partes, os aumentos observados devem-se à flexibilização pelo Governo Federal ao acesso a armas de fogo, por meio de portarias e decretos publicados entre os anos de 2018 e 2020 (Ipea, 2024).
Estima-se que existam mais de 100 organizações criminosas atuantes no Brasil, de modo que quase todas se encontram presentes no sistema prisional do país (Senappen, 2023). Na região Norte, o Amapá abriga as facções criminosas locais mais fortes e violentas (Adorno & Muniz, 2022). O estado, devido à fronteira com a Guiana Francesa, aparenta-se atrativo para o tráfico de drogas. A partir de Oiapoque, portanto, torna-se possível o direcionamento de ilícitos para outros continentes. Além disso, o Porto de Santana tem obtido destaque para o escoamento de drogas destinado à Europa (FBSP e IMC, 2023).
São três as facções de origem amapaense: Amigos Para Sempre (APS), Família Terror do Amapá (FTA) e União Criminosa do Amapá (UCA), as quais também são apontadas no levantamento de organizações criminosas atuantes no sistema prisional (Senappen, 2023). Há a existência de consórcio entre as organizações APS e FTA, do qual fazem parte cerca de 12 mil integrantes (em 2020, a estimativa girava em torno de 7 mil) (Ipea, 2024).
Além das organizações criminosas locais, há no Amapá a presença de membros das duas grandes facções nacionais, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). No estado, embora não haja um cenário hegemônico de nenhuma das duas, fontes afirmam que a paulista PCC sai com pequena vantagem à frente da carioca CV (Ipea, 2024). Localmente, o PCC possui aliança com a FTA, enquanto o CV tem vínculo estabelecido com a UCA.
Nos municípios da FF-AP, constata-se um cenário de disputa entre as facções criminosas (nacionais e locais) para controle do tráfico de drogas nas cidades (FBSP e IMC, 2023). A tabela a seguir mostra os municípios que ainda são motivos de disputa entre as facções e aqueles que já se encontram dominados por uma organização criminosa. Enquanto os demais continuam a ser disputados, há dois em controle: Serra do Navio, pela UCA, e, pelo CV, Ferreira Gomes.
Tabela 34. Facções Criminosas atuando no Amapá
Estado | Municípios | Situação | Facções |
AMAPÁ | Serra do Navio | Controlada | UCA |
Amapá | Em disputa | FTA – CV | |
Pedra Branca do Amapari | Em disputa | CV – PCC | |
Calçoene | Em disputa | FTA – PCC | |
Ferreira Gomes | Controlada | CV | |
Macapá | Em disputa | FTA – CV | |
Oiapoque | Em disputa | FTA – CV – PCC | |
Porto Grande | Controlada | FTA | |
Pracuúba | Em disputa | FTA – PCC | |
Santana | Em disputa | FTA – CV | |
Laranjal do Jari | Em disputa | UCA – PCC |
Fonte: Instituto Mãe Crioula – IMC/FBSP (2023).
Elaboração e organização: PDIFF-AP, 2024.
O fenômeno de interiorização das facções tem sido observado no estado, com enfoque na região Sul, onde está localizado Laranjal do Jari, que se insere na Foz do Rio Amazonas, região integrante da rota de narcotráfico do corredor Solimões. Em junho de 2024, foi realizada no município a maior apreensão de entorpecentes da história do estado. Avaliada em R$6 milhões, a carga de skank partiu de Santarém (PA) e chegou até o município através de Monte Dourado (PA).
Em possível cenário favorável à ação criminosa, a droga seria dividida e distribuída entre as facções criminosas da capital. Na fronteira franco-brasileira, preza-se pelo atendimento aos três principais mercados consumidores das drogas: 1- os chamados “sítios de garimpo”; 2- o mercado local de Oiapoque; 3- os mercados das capitais Macapá e Belém do Pará (Borges e Correa, 2023).
No Amapá, lesão corporal dolosa (violência doméstica), ameaças, perseguição (stalking), violência psicológica e violência sexual são as principais formas de violência contra a mulher. Em 2023, 968 mulheres foram vítimas de agressão física em seus lares; 6.461 foram ameaçadas; 1.004 foram perseguidas e 639 foram psicologicamente violentadas. No que concerne ao feminicídio, houve registro de 4 casos em 2023, com redução de 55,56% em relação a 2022 (9 registros). As tentativas de feminicídio, no entanto, continuam a preocupar. Em 2023, registram-se 50 ocorrências (11,1% a mais do que no ano anterior) (FBSP, 2024).
No tangente à violência sexual, tem sido observado um elevado crescimento de estupros femininos no estado nos últimos anos. O Amapá liderou o aumento percentual de casos da violência na Amazônia Legal entre 2018 e 2020 (88,5%) (Instituto Igarapé, 2024). Em 2022, a taxa de estupros de mulheres para cada 100 mil habitantes foi de 67,3. Houve o registro de 653 vítimas, com base em ocorrências policiais (Ministério das Mulheres,2024).
Dentre os municípios da FF-AP, Laranjal do Jari, Oiapoque e Pedra Branca do Amapari apresentam índices mais elevados (PC, 2024). Somente no período entre maio e julho de 2023, foram registrados 150 casos de violência contra a mulher em Laranjal do Jari. Em 2022, o município do sul do estado apresentou 10% do total de casos no estado. Oiapoque, por sua vez, figurou em quinto lugar, com participação em 5% dos casos registrados (MP-AP, 2023).
Os três municípios mencionados também são os que contam com os aparatos institucionais mais avançados para o enfrentamento à violência contra a mulher. Em Laranjal do Jari, estão à disposição da população feminina a Delegacia da Mulher e o Centro de Referência em Atendimento à Mulher (Cram), que também se encontra presente em Oiapoque. Já em Pedra Branca do Amapari, encontra-se em funcionamento a Casa de Apoio à Mulher Amapariense.
Durante o processo de pesquisa, verificou-se que em junho de 2017 houve o lançamento de uma nova versão do Sistema de Cadastro de Casos de Violência Doméstica (SICAVID), que se trata de uma plataforma cuja alimentação de dados é de responsabilidade das promotorias de Justiça (MP/AP, 2017). Não existem, no entanto, registros de informações estatísticas nos últimos 7 anos. Em 2013, foi disponibilizado pelo Ministério Público do estado o primeiro e último Mapa da Violência Doméstica contra a Mulher no Amapá, onde todos os municípios tiveram dados registrados, com base no SICAVID.
No Amapá, o abuso sexual é a forma de violação mais comum contra crianças e adolescentes (Amapá, 2024). Caracterizados como crescentes, os casos registrados no estado entre 2018 e 2023 aproximaram-se de mil (983). De 2020 em diante, a exploração sexual contra vulneráveis ultrapassou as ocorrências das violências física e psicológica (SVS, 2024). Em relatórios nacionais, exibe-se um cenário ainda mais preocupante: houve o registro de 516 ocorrências no ano de 2023, que representa uma taxa de 70,3 casos para cada 100 mil habitantes (FBSP, 2024).
Meninas entre 10 e 14 anos de idade e meninos entre 5 e 9 anos constituem o padrão de vítimas de abuso sexual para cada gênero. Quanto aos criminosos, predominam pais, padrastos e pessoas conhecidas, com destaque para a mudança de autor no caso das meninas, que passam a ser violentadas por cônjuges e namorados a partir da adolescência. Em 83% dos casos, os autores tratam-se de pessoas conhecidas, com destaque para pessoas com grau parental com a vítima (59%). Em relação aos lugares das ocorrências, 83% acontecem nas próprias residências das vítimas. Destaca-se também que, em um terço dos casos notificados, houve repetição da violência sexual (SVS, 2024).
Em Oiapoque, já se encontra diagnosticada a existência de redes de exploração sexual de crianças e adolescentes, as quais são incorporadas ao mercado da prostituição. As vítimas tratam-se não somente de meninas amapaenses, mas também provêm das cidades paraenses de Santarém, Almeirim e Monte Dourado. Apontou-se que as vulneráveis são exploradas em hotéis, casas noturnas e fazendas da cidade. Também registrou-se a realização de leilões de virgindade de garotas entre 12 e 14 anos de idade, com a participação de indivíduos da Guiana Francesa, empresários e autoridades políticas de Oiapoque. Além disso, há a indicação de que adolescentes são recrutadas e transportadas para a coletividade francesa com o fim de prostituição, em benefício financeiro de organizadores do esquema de tráfico de pessoas (ICMPD, 2016).
Dos municípios amapaenses, apenas 4 contam com institucionalização de rede de proteção e prevenção contra a exploração sexual de crianças e adolescentes (SVS, 2024). Além de Macapá e Santana, destacam-se Oiapoque e Laranjal do Jari, municípios da FF-AP (onde os resultados dos trabalhos de campo do PDIFF-AP apontam a problemática em todas as cidades). Em âmbito estadual, conta-se com a Rede Abraça-me, formada pela união de forças de agentes institucionais governamentais e não governamentais, cuja finalidade é a prevenção, identificação e enfrentamento dos diversos tipos de violência contra crianças e adolescentes. Os Centros Especializados de Assistência Social (CREA) também atuam no combate à violência sexual contra menores, através de atendimento especializado.
SEGURANÇA NA FAIXA DE FRONTEIRA DO AMAPÁ
No triênio 2018-2020, o eixo Macapá-Santana (que engloba 73,8% da população estadual) concentrou 84% das letalidades registradas (983 ocorrências). Em contraste, Oiapoque, município com a terceira maior taxa de homicídios do período (46,5 hom./100 mil habitantes), registrou o total de 38 homicídios; número equivalente a 3,24% dos eventos totais registrados. Especificamente sobre 2020, deve-se salientar que Pracuúba apresentou a maior das taxas municipais na categoria, com 57,2 homicídios para cada 100 mil habitantes (Ipea, 2023).
Tabela 35. Grupos de municípios por taxa média de homicídios por 100 mil habitantes – Amapá, triênio 2018-2020
| Intervalo Taxa Média de Homicídios por 100 mil hab. | Municípios |
Grupo I | 8,08 | Pedra Branca do Amapari (8,08) |
Grupo II | 12,35 a 22,29 | Serra do Navio (12,35); Mazagão (20,03); Vitória do Jari (20,92); Cutias (22,29) |
Grupo III | 26,99 a 39,45 | Calçoene (26,99); Tartarugalzinho (28,88); Laranjal do Jari (30,42); Pracuúba (32,55); Ferreira Gomes (34,28), Itaubal (36,3); Porto Grande (39,45) |
Grupo IV | 46,45 a 52,85 | Oiapoque (46,45); Santana (50,81); Macapá (52,85) |
Fonte: Ipea, 2023. Elaboração e organização: PDIFF-AP, 2024.
Com o objetivo de comparar os registros totais de homicídios em municípios da região metropolitana e dos interiores nos estados da região Norte entre 2010 e 2020, constatou-se que as taxas de cidades interioranas do Amapá não apresentaram diferenças altamente significativas em relação às da área metropolitana. Em análise da distribuição relativa dos homicídios em relação às duas categorias, repete-se o mesmo padrão. Vale destacar, no entanto, que nos anos de 2011, 2012, 2014, 2015, 2019 e 2020 registraram-se mais homicídios no grupo de cidades do interior do estado (Ipea, 2024).
Deve-se notar que Oiapoque e Laranjal do Jari, embora sejam os municípios da FF-AP com os maiores números de unidades de Segurança Pública, apresentaram as taxas mais elevadas de homicídios entre os anos de 2020 e 2022, como pode ser observado no gráfico abaixo.
Gráfico 15. Homicídios em municípios de faixa de fronteira do Amapá
Fonte: MJSP (2020, 2021 e 2023). Elaboração e organização: PDIFF-AP, 2024.
Dos municípios da FF-AP que compõem o 7° Batalhão de Polícia Militar, Pedra Branca do Amapari foi o que apresentou o maior número de ocorrências levadas às delegacias, entre os anos de 2020 e 2022. No total, foram registradas 744 denúncias. Em seguida, vêm os municípios de Ferreira Gomes (com 321), Amapá (304) e Serra do Navio (165). Dentre os crimes mais frequentes, destacam-se violência contra a mulher, tráfico de drogas, lesão corporal e roubo (Pastana et al., 2024).
Nos últimos anos, os fluxos de migração ilegal na fronteira franco-brasileira têm ganhado mais visibilidade. O Amapá configura-se como um dos principais espaços de trânsito de estrangeiros no Brasil (Amapá, 2024). Entre 2019 e 2023, foram apresentados 401 imigrantes à sede da Polícia Federal, com destaque para 2021, quando a Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou 334 detenções de estrangeiros ilegais no estado (G1 Amapá, 2021). A maioria trata-se de nacionais do Haiti que acessam o Brasil após transitar pelo Suriname e pela Guiana Francesa, em fuga de cenários políticos conturbados no país de origem (Ipea, 2021). Constituem também os perfis de principais refugiados os venezuelanos e cubanos (Secricomex apud G1 Amapá 2024).
Desde 2023, Oiapoque destaca-se como o terceiro maior ponto de entrada de haitianos e cubanos no Brasil. Como ponto de saída, trata-se do segundo mais utilizado por sírios, afegãos e marroquinos (Amapá, 2024). Importa destacar, no entanto, que o objetivo final da maioria desses imigrantes é a chegada às mais conhecidas metrópoles do país, como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Além desses destinos, visa-se também o acesso à Guiana Francesa, principalmente por haitianos (ICMPD, 2016).
Em vista dessas dinâmicas, deve-se voltar atenção à existência de redes clandestinas para transporte ilegal dos estrangeiros que chegam ao estado, as quais se favorecem da cobrança de altos valores para a prestação do serviço (G1 Amapá, 2022). Além da extorsão financeira, verifica-se que os estrangeiros ilegais que chegam ao Brasil costumam sofrer os mais variados tipos de violência, a exemplo da violação sexual, no caso das mulheres (ICMPD, 2016).
No que diz respeito a essa engrenagem, deve-se destacar a atuação dos chamados “coiotes”, os quais são responsáveis pelo transporte ilegal de migrantes, tanto em destino à Guiana Francesa e outros países quanto internamente (ICMPD, 2016). A legislação nacional enquadra-os dentro do crime de aliciamento para o fim de emigração, cuja prática se dá através do recrutamento fraudulento de trabalhadores para direcionamento a territórios estrangeiros (art. 206 do Código Penal). Em anos recentes, têm sido recorrentes apreensões desses sujeitos em atividade na faixa de fronteira do estado (Brasil, 2024; g1 Amapá, 2022).
Nas reuniões mais recentes da CMT, têm sido discutidas as questões migratórias que envolvem o Brasil e a Guiana Francesa. A última parte tem destacado o padrão de aumento de pedidos de asilo desde 2019, principalmente por sírios, afegãos e marroquinos, que passam pelo Brasil até chegarem à coletividade da França. Sobre isso, tem sido colocada em questão a estratégia de aproveitamento do visto humanitário brasileiro para facilitar o acesso a outros países; o que preocupa a parte francesa, em principal pela dificuldade de deportação de imigrantes oriundos de lugares sem conexões áreas.
Por fim, no que se refere ao fluxo de brasileiros que migram para a Guiana Francesa, importa destacar a relação com o direcionamento a garimpos ilegais e as questões que decorrem da referida problemática, a exemplo da prostituição, do tráfico de drogas, de pessoas e de armas (CMT, 2015). Para a parte francesa, trata-se do principal obstáculo para o progresso da Cooperação Transfronteiriça e da emissão de vistos para brasileiros. Já a parte brasileira, por sua vez, discorda dessa posição, em defesa do argumento de que as práticas de tais atividades independem de vistos (Gonçalves, 2022).
No Amapá, as violências praticadas contra os povos indígenas raramente ganham destaque na mídia ou nas estatísticas oficiais. No mapa de Cartografias de Ataques Contra Indígenas (CACI), há registros de 7 casos. Com exceção do registrado em 2019, todos ocorreram em Oiapoque: 1 em 2003, 1 em 2008, 3 em 2015, 1 em 2019 e 1 em 2022. No último relatório do Cimi (2023), constam 3 assassinatos no ano de 2019 e 2 em 2022, quando também houve uma tentativa de assassinato.
Acredita-se em um cenário de subnotificação no estado, o qual pode ser compreendido como parte de violências dissimuladas e invisibilizadas, principalmente pelo fato de a inacessibilidade das referidas informações distanciar o processo elaborativo e implementativo de políticas públicas para esses povos (Ipea, 2024). Ainda assim, traz-se à luz as taxas de homicídios de indígenas por estado em 2022, com posicionamento do Amapá (83,4 homicídios para cada 100 mil habitantes) entre as três unidades federativas com taxas superiores a 80,0 (Ipea, 2024).
O estupro e falecimento de Maria Clara (2023), indígena Karipuna de 15 anos, e o assassinato do cacique Emyra Wajãpi (2019), que são dois dos casos identificados nos últimos 5 anos, tomaram proporção nacional e internacional (BBC, CNN, The Guardian, The New York Times, NBC News).
O povo Wajãpi, cujas terras localizam-se entre os municípios de Pedra Branca do Amapari e Laranjal do Jari, encontram-se em situação de risco e vulnerabilidade, agravada principalmente após a publicação de decreto de extinção da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca) pelo ex-presidente Michel Temer em agosto de 2017 e o incentivo à exploração e apropriação privada de terras indígenas pelo também ex-presidente Jair Bolsonaro. Durante o mês de julho de 2019, quando o cacique Emyra foi assassinado, o Conselho das Aldeias Wajãpi (Apina) realizou uma série de denúncias sobre ameaças e invasões de supostos garimpeiros em suas aldeias.
Contabilizaram-se os assassinatos ocorridos nos campos do bioma amazônico entre os anos de 1985 e 2019. Foram 1.202 ocorrências, do total nacional de 1.812 mortes. Desse número, o Amapá apresentou apenas 7 assassinatos, que, em porcentagem referente ao montante nacional, significa 0,38%. O estado foi o único da Amazônia Legal a registrar uma porcentagem menor do que 1%. Em contraste, os estados do Pará e do Maranhão foram palco de, respectivamente, 565 (31,12%) e 169 (9,31%) homicídios no campo (Sodré e Filho, 2021). Quanto às ocorrências nos municípios da FF-AP, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) aponta em seus relatórios as cidades de Calçoene, Ferreira Gomes, Amapá, Oiapoque, Pedra Branca do Amapari.
AS INTER-RELAÇÕES NO CONTEXTO DA SEGURANÇA NA FAIXA DE FRONTEIRA AMAPAENSE
No contexto da segurança na FF-AP, as inter-relações se dão a nível estadual e internacional. Logo, deve-se voltar atenção às interações com os agentes de segurança pública pertencentes àqueles territórios com os quais o Amapá possui limite ou fronteira. Nesse caso, ao distrito paraense de Monte Dourado (que se limita com Laranjal do Jari) e à Guiana Francesa (à qual também se adicionam os agentes de defesa nacional).
Figura 14. Mapa das Forças de Segurança Pública e Forças Armadas na FF-AP
Organização: PDIFF-AP, 2025.
Através de suas forças de segurança pública, o Amapá e a Coletividade Territorial Ultramarina da França exercem cooperação policial internacional por meio do Centro de Cooperação Policial (CCP), criado em 2010 na cidade-gêmea de Saint-Georges-de-l’Oyapock. Os diversos órgãos brasileiros atuam cooperativamente com as seguintes instituições francesas: Police aux Frontières (PAF), Gendarmerie Nationale, Douanes Françaises e Exército Francês, através da presença do regimento da Legião Estrangeira (Borges e Correa, 2023). A cooperação voltada à defesa transfronteiriça na fronteira franco-brasileira trata-se da maior relação cooperativa entre o Brasil e um país da América do Sul (CMT, 2023). Realiza-se por meio de iniciativas como a parceria do Comando de Fronteira do Amapá e do 34º Batalhão de Infantaria da Selva com o Exército francês nas Operações Jararaca e Gran Rochelle (ambas constituintes da Operação Ágata), as quais visam ao combate a crimes ambientais, ao garimpo ilegal e à criminalidade transfronteiriça (Exército Brasileiro, 2024).
Deve-se evidenciar, entretanto, a ocorrência de desequilíbrio no processo de troca de informações entre as partes francesa e brasileira dentro do CCP, que se explica por obstáculos jurídicos ocasionados pela diferença entre as duas legislações nacionais. No período entre julho de 2013 e agosto de 2018, autoridades brasileiras e da Guiana Francesa direcionaram 1.342 demandas informacionais ao Centro. Do total de registros, enquanto apenas 139 partiram do Brasil, 1.203 (90%) eram solicitações francesas (Borges e Correa, 2023).
Em relação a Monte Dourado, apurou-se que o estado de “isolamento” das forças de segurança pública impede avanços na cooperação policial, principalmente entre as polícias militares e as guardas civis municipais de Monte Dourado e Laranjal do Jari, como expresso por interlocutores do 11º Batalhão da Polícia Militar e da Guarda Civil Municipal, de Laranjal do Jari (Trabalho de campo, 2023)
Os munícipes de Serra do Navio dependem do policiamento militar advindo da vizinha Pedra Branca do Amapari, desde o início da reforma do quartel da PM na cidade, que ainda se encontra abandonada (MP-AP, 2024). Um interlocutor da Polícia Civil de Serra do Navio confirmou ao PDIFF-AP que não houve continuidade na reforma. Em consequência, os policiais militares do município foram alocados em uma sala da prefeitura e, posteriormente, destinados à Pedra Branca (de onde direcionam-se à cidade de origem para atendimento das ocorrências). Segundo o mesmo interlocutor, para compensar o policiamento escasso em Serra do Navio, a Polícia Civil realiza rondas pela cidade, com o intuito de não deixar a população desamparada da presença policial.
No que se refere às relações entre as forças de segurança pública do Brasil e da Guiana Francesa, nota-se que a falta de reciprocidade ainda é característica nuclear, assim como nos demais setores. No entanto, como forma de reverter esse cenário, reuniões como as da Comissão Mista Transfronteiriça (CMT) levam a direcionamentos coerentes, como a demanda brasileira por inclusão de membros das polícias do Amapá no CCP (Amapá, 2024).
ANÁLISE SWOT/FOFA DE EDUCAÇÃO
- FORÇAS
- FRAQUEZAS
- OPORTUNIDADES
- AMEAÇAS
- Operação Hórus no combate à criminalidade;
- Delegacias de Polícia Civil presentes em todos os municípios;
- Oiapoque e Laranjal do Jari são os municípios da FF-AP que detém as principais unidades de Segurança Pública;
- Oiapoque é interligado ao Centro de Cooperação Policial Internacional;
- Rede institucionalizada para enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes (REAJA) em Laranjal do Jari;
- Secretaria Municipal de Segurança Pública em Pedra Branca;
- Central de Operações com sistema de monitoramento em tempo real em Pedra Branca;
- Unidades especializadas no atendimento para mulheres vitimas de violencia domestica;
- Delegacia de Polícia Itinerante;
- Parceria entre Polícia Civil, Conselho Tutelar e Secretaria de Saúde no município de Amapá;
- Delegacia virtual;
- Embarcação “Garça Amarela” da Polícia Civil para atendimento de ocorrências fluviais em Pracuúba;
- Efetivo reduzido da Polícia Militar;
- Cobertura insuficiente pelas forças de Segurança Publica em comunidades remotas;
- Déficit de sistematização e divulgação de dados de Segurança Pública;
- Baixa difusão do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (SINESP);
- Falta de formação tecnológica dos agentes de Segurança Pública;
- Inexistência de números universais para realização de denúncias;
- Falta de infraestrutura física das unidades de Segurança Pública;
- Inexistência de delegacias especializadas;
- Inexistencia de cooperação de segurança publica entre Laranjal do Jari e o distrito de Monte Dourado (PA);
- Guarda Civil Municipal (GCM) e Defesa Civil Municipal de Serra do Navio não regulamentadas;
- Inexistência de policia militar em Serra do Navio;
- Programa Wi-Fi Brasil;
- Adesão ao Programa Capta+;
- Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (SINESP);
- Cursos de aperfeiçoamento em Segurança Pública;
- Implementação da Sala Lilás para atendimento de mulheres vítimas de violência;
- Ampliação do Cidadão Mirim e outros projetos sociais da Polícia Militar para todos os municípios da FF-AP;
- Aumento de reciprocidade dentro do Centro de Cooperação Policial Internacional;
- Política de incentivo à interiorização como a regionalização de concursos públicos na área de Segurança Pública ou implementação de bonificação regional;
- Desenvolvimento integracional com Monte Dourado através da Delegacia de Polícia de Monte Dourado, localizada em Laranjal do Jari;
- Elaboração de sistema de estatísticas de Segurança Pública;
- Habilitação e qualificação dos guardas civis junto ao DETRAN-AP para fiscalização do trânsito;
- Atuação de facções criminosas locais e nacionais;
- Tráfico de drogas;
- Violência sexual contra vulneráveis;
- Violência contra mulheres;
- “Coiotes” e a promoção da migração ilegal;
- Garimpo ilegal
- Utilização do município como esconderijo por criminosos em fuga;


