Proposta Metodológica
A metodologia adotada para a construção do Plano de Desenvolvimento e Integração da Faixa de Fronteira no Amapá (PDIFF-AP) foi estruturada a partir de dois eixos orientadores: a participação social e as inter-relações existentes na faixa de fronteira. O principal objetivo foi a elaboração de um diagnóstico situacional dos municípios da faixa de fronteira, culminando na proposição de uma carteira de projetos voltada ao desenvolvimento sustentável e integrado da região. O desenvolvimento do PDIFF-AP foi realizado em 3 etapas: Capacitações e Levantamento de Dados, Oficinas de Diagnóstico e Oficinas de Carteira de Projetos.
A primeira etapa consistiu no processo de formação e capacitação da equipe de pesquisadores, composta por servidores e estudantes de graduação e pós-graduação (mestrandos) da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).
Essa fase contemplou o nivelamento teórico-metodológico da equipe, com foco nas especificidades da faixa de fronteira, nos eixos temáticos abordados no plano, bem como, na organização das dinâmicas operacionais do projeto, que contou com reuniões semanais e acompanhamento contínuo de forma remota através das plataformas Google Meet e Notion.
Além disso, foram realizadas reuniões formativas com especialistas externos — representantes do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), professores de universidades federais (UNIFAP, UFRJ, UFRGS) e membros do Governo do Estado do Amapá — que contribuíram com importantes aportes teóricos e metodológicos.
Na primeira etapa também buscou-se elaborar um compilado bibliográfico desenvolvido a partir de acervos físicos e digitais. Esse levantamento de bibliografia focou na análise de artigos, trabalho de conclusão de curso (TCC), dissertações, teses, trabalhos técnicos e institucionais (IBGE, IPEA, MIDR entre outros) com recortes territoriais diversos e contemplando diversas escalas, como “Amazônia”, “Estado do Amapá” e “municípios da faixa de fronteira”.
Esse agrupamento de pesquisas auxiliou na construção de um diagnóstico prévio a partir da análise de dados secundários com a intenção de validá-los posteriormente durante as visitas de campo e na sistematização de informações gerando produtos como mapas, gráficos, tabelas e relatórios para os oito municípios abrangidos (Amapá, Calçoene, Ferreira Gomes, Laranjal do Jari, Oiapoque, Pedra Branca do Amapari, Pracuúba e Serra do Navio), considerando oito eixos temáticos: Turismo, Meio Ambiente, Saúde, Comunidades Tradicionais, Educação, Segurança, Infraestrutura e Setor Produtivo.
A primeira etapa foi concluída com a elaboração do Relatório Preliminar de Diagnóstico e dois instrumentos estratégicos: o Mapeamento de Lideranças Locais e o Quadro de Interseccionalidades Temáticas. Este último constituiu uma ferramenta analítica fundamental para compreensão das sobreposições e inter-relações entre os diferentes eixos temáticos, orientando as ações de campo e a formulação de políticas integradas.
A segunda etapa foi marcada pela realização da pesquisa de campo e das Oficinas de Diagnóstico com o objetivo de validar e aprofundar os dados secundários por meio da escuta qualificada de lideranças e atores locais. Em Oiapoque e Laranjal do Jari foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com atores locais, e nos demais municípios foram promovidas oficinas de diagnóstico com a participação de atores locais.
Cada oficina seguiu o roteiro: apresentação institucional do PDIFF-AP, organização dos participantes em dois grupos temáticos (Grupo A: Turismo, Setor Produtivo, Infraestrutura e Meio Ambiente e Grupo B: Comunidades Tradicionais, Segurança Educação e Saúde) para aplicação da metodologia SWOT/FOFA (Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças), adaptada à realidade local e encerramento.
A análise SWOT/FOFA permitiu a identificação de elementos internos e externos que afetam diretamente a capacidade de desenvolvimento dos municípios, oferecendo uma análise estratégica e orientada à construção de soluções.
A terceira e última etapa consistiu nas Oficinas de Carteira de Projetos, voltadas à formulação participativa da Carteira de Projetos do PDIFF-AP, com base nos diagnósticos consolidados nas fases anteriores.
Inicialmente, a equipe mapeou projetos dentro dos oito eixos temáticos, priorizando modelos passíveis de inspiração ou adaptação, considerando a realidade dos municípios da FF-AP, e projetos de implementação imediata (acessados através de editais, como ONG’s, agências de fomento, fundos de investimento, entre outros). Também consideramos projetos estruturantes conforme os cenários sociais da FF-AP, exemplo do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Foram elaborados formulários temáticos com listas de modelos de projetos para cada temática. Durante as oficinas, os participantes foram convidados a selecionar cinco projetos, por temática, considerados mais relevantes para seus respectivos municípios. Adicionalmente, puderam sugerir novos modelos por meio de uma seção aberta de sugestões, o que garantiu a incorporação de perspectivas locais não previstas inicialmente pela equipe técnica.
Todo o processo de construção da carteira manteve como princípio central a participação social, assegurando que os projetos priorizados refletissem efetivamente as demandas, necessidades e potencialidades locais. Como resultado, consolidaram-se a carteira de ações prioritárias para o desenvolvimento da faixa de fronteira no estado do Amapá.
Destaca-se, ainda, a realização de uma oficina específica com representantes indígenas no Conselho de Caciques e Cacicas dos Povos Indígenas de Oiapoque, a convite do Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (IEPÉ), que contou com a participação de cerca de 50 lideranças indígenas, sendo elas: Karipuna, Palikur, Galibi Marworno e Galibi Kalinã. Nesse encontro, foram debatidas as principais problemáticas que afetam as aldeias, resultando na seleção e validação de 13 projetos voltados às comunidades tradicionais.
A metodologia adotada na elaboração do PDIFF-AP caracterizou-se por sua abordagem participativa, sensível e orientada à realidade concreta dos municípios fronteiriços. Estruturada em três etapas interdependentes, a metodologia possibilitou a articulação entre conhecimento técnico-científico e saberes locais, promovendo uma leitura crítica, integrada e estratégica do território.
Mais do que um diagnóstico ou levantamento de demandas, o plano consolida uma proposta estratégica e viável para o desenvolvimento sustentável e integrado da FF-AP. Trata-se de um instrumento orientador de políticas públicas, capaz de articular saberes, potencialidades regionais e ações concretas com foco na transformação social e territorial da região.



