MEIO AMBIENTE
Meio ambiente refere-se ao conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas (Brasil, 1981). Dentro da Constituição brasileira de 1988, o art. 225 expõe que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, e que é obrigação do Poder Público e da coletividade defendê-lo e conservá-lo, tanto para as presentes quanto para as futuras gerações (Brasil, 1988).
Com isso, para tratar do Meio Ambiente na Faixa de Fronteira do Amapá (FF-AP), foram escolhidos quatro temas: Unidades de Conservação, Desmatamento, Poluição Ambiental, Recursos Hídricos e Mudanças Climáticas.
Cerca de 75% do Amapá é coberto por florestas tropicais úmidas e latifoliadas, predominantemente em terra firme, enquanto uma parte menor é composta por florestas inundáveis. Essas florestas densas se estendem pelo oeste, centro e porções da planície litorânea atlântica, do sul (delta do Amazonas) ao leste e norte. O Amapá é o estado amazônico com menos devastação de florestas nativas, com cerca de 1% de mata destruída até 1998. Além disso, 6% do estado é coberto por cerrados, si13tuados nas partes não inundáveis da planície litorânea, ao leste (Drummond, 2000).
Outro ponto são as atividades econômicas relacionadas ao meio ambiente no estado: extração de minério, pesca, agricultura, extrativismo e pecuária. No entanto, quando essas atividades não são regularizadas pelo estado, trazem malefícios ao meio ambiente, como desmatamento, garimpo/mineração ilegal e poluição ambiental.
Nesse sentido, a temática ambiental na FF-AP faz-se fundamental, pois o entendimento das dinâmicas ambientais e impactos das atividades humanas tem importante impacto na formulação de políticas públicas de promoção da conservação e do uso sustentável dos recursos naturais. Com isso, o objetivo deste diagnóstico é identificar e mapear as forças, fraquezas, oportunidades e ameaças relacionadas ao meio ambiente na FF-AP. A temática dialoga transversalmente com os setores de Infraestrutura, Turismo e Setor Produtivo.
DADOS DE MEIO AMBIENTE
A Lei Nacional de Unidades de Conservação (Lei n. 9.985/2000) estabelece o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) no Brasil. Ela define critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação, visando a preservação da biodiversidade e a promoção do desenvolvimento sustentável (Brasil, 2000).
O SNUC divide as unidades de conservação (UC) em dois grupos, sendo o primeiro: Proteção Integral, com o objetivo de preservação da natureza, permitindo apenas o uso indireto dos seus recursos. Incluem Estação Ecológica, Reserva Biológica, Parque Nacional, Monumento Natural e Refúgio de Vida Silvestre (Brasil, 2000).
O segundo grupo é de Uso Sustentável, que tem como objetivo conciliar a conservação da natureza com o uso sustentável dos seus recursos. Incluem Área de Proteção Ambiental, Área de Relevante Interesse Ecológico, Floresta Nacional, Reserva Extrativista, Reserva de Fauna, Reserva de Desenvolvimento Sustentável e Reserva Particular do Patrimônio Natural (Brasil, 2000).
A principal fragilidade observada é a ausência de plano de manejo em algumas Unidades de Conservação (UC), o que compromete a atuação dos órgãos responsáveis por sua fiscalização e gestão. Embora atividades como turismo, pesquisa científica, visitação e uso sustentável — especialmente em Reservas Extrativistas (RESEX) — sejam previstas pela legislação, sua implementação depende da existência do plano de manejo, o que impede a autorização legal dessas práticas. Além disso, a escassez de servidores públicos agrava as limitações na gestão, dificultando o cumprimento integral das funções das UC conforme definido pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).
Figura 12. Mapa de Unidades de Conservação na FF-AP

Os impactos do desmatamento incluem a perda de oportunidades para o uso sustentável da floresta, como a produção de mercadorias tradicionais através do manejo florestal e a extração de produtos não-madeireiros. Além disso, o desmatamento impede a captura do valor dos serviços ambientais que a floresta proporciona. A natureza não sustentável dos usos de terra em áreas desmatadas resulta em oportunidades perdidas significativas a longo prazo para manter a floresta em pé (Fearnside, 2006).
Um dos programas fundamentais implementados pelo INPE é o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES), que, desde 1988, monitora anualmente a taxa de desmatamento por estado da região amazônica (MCTI, 2024). O PRODES é um dos principais sistemas para medir os índices de desmatamento. Dessa forma, os dados fornecidos são utilizados para comparar o Amapá com outros estados da Amazônia Legal.
O Arco Norte inclui as faixas de fronteira dos estados do Amapá, Pará, Roraima, Amazonas e Acre. Embora faça parte da Amazônia Legal, a base produtiva e indicadores socioeconômicos deslocaram a faixa de fronteira de Rondônia para o Arco Central. Diferenças na base produtiva, posição geográfica e predominância de população indígena definiram as sub-regiões do Arco Norte. Apesar dos fluxos imigratórios, a faixa de fronteira Norte permanece um “arco indígena”, tanto em território (grandes áreas de reserva) quanto em identidade (importância étnico-cultural) (Proposta de Reestruturação do Programa de Desenvolvimento da Faixa de Fronteira, 2005)
Para analisar os índices de desmatamento entre os estados que fazem parte do Arco Norte (Amapá, Amazonas, Acre, Pará e Roraima), será usado como referência o periodo entre 2013 e 2023.
Gráfico 12. Índices de Desmatamento nos estados que compõem o Arco Norte

A partir do gráfico 12, podemos observar que o Pará foi o estado com o maior desmatamento ao longo do período. Em 2013, o desmatamento foi de 2.346 km², com pico em 2022 (4.162 km²), mas em 2023, o desmatamento caiu para 3.299 km². O Amapá também teve variações, com desmatamento começando em 23 km² em 2013, atingindo 32 km² em 2019, e reduzindo para 17 km² em 2021 e 2023. O Acre, estado com os menores índices de desmatamento do Arco Norte, teve 221 km² de desmatamento em 2013, subiu para 264 km² em 2015 e alcançou o pico em 2021, com 889 km², diminuindo para 601 km² em 2023.
Enquanto Pará e Amazonas tiveram altos níveis de desmatamento, Roraima, Amapá e Acre apresentaram padrões mais variados e, em geral, desmatamento mais moderado ou em declínio. A partir da análise dos índices de desmatamento do gráfico, é possível observar que o estado do Amapá influencia pouquíssimo para o aumento desses índices dentro do Arco Norte. Uma justificativa para os baixos números de desmatamento do estado pode ser pela grande quantidade de áreas protegidas, que inibe, mesmo que não integralmente, o aumento do desmatamento.
DADOS DE MEIO AMBIENTE NA FAIXA DE FRONTEIRA AMAPAENSE
Os índices de desmatamento nos municípios da FF-AP revelam padrões distintos de variação da área desmatada. Municípios como Oiapoque e Pedra Branca do Amapari apresentam índices significativos, enquanto outros, como Serra do Navio e Amapá, mantêm áreas desmatadas relativamente baixas. Essas diferenças podem ser atribuídas a uma combinação de fatores, incluindo a eficácia das políticas de conservação, as pressões socioeconômicas locais e as práticas de uso da terra.
Para analisar os índices de desmatamento entre os municípios da FF-AP, o período entre 2017 e 2023 será usado como referência, conforme Tabela 24:
Tabela 24. Índices de Desmatamento nos municípios da FF-AP em km²
MUNICÍPO | 2017 | 2018 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 |
Oiapoque
| 1,56 | 2,38 | 7,24 | 0,68 | 0,71 | 1,61 | 0,77 |
Calçoene
| 3,02 | 1,97 | 2,06 | 1,11 | 1,09 | 1,74 | 2,11 |
Amapá
| 0,16 | – | 0,69 | – | – | – | – |
Pedra Branca do Amapari
| 1,45 | 2,03 | 4,91 | 1,02 | 2 | 3,34 | 0,74 |
Pracuúba | 0,18 | 0,19 | 1,28 | 0,64 | 0,22 | – | 0,41 |
Serra do Navio
| 0,07 | 0,18 | 0,5 | 0,08 | 0,35 | 0,17 | 0,19 |
Ferreira Gomes
| – | 0,42 | 1,3 | 0,45 | 0,07 | 0,75 | 0,17 |
Laranjal do Jari
| 1,82 | 1,74 | 1,49 | 0,37 | 2,15 | 1,71 | 2,13 |
Fonte: PRODES; Organização: PDIFF-AP, 2024
O desmatamento desencadeia graves impactos em ecossistemas e populações humanas, entre os quais se destacam a perda de biodiversidade, a degradação de nascentes e solos, alterações nos regimes de chuva e o aumento da vulnerabilidade de comunidades tradicionais. Na FF-AP, tais efeitos seriam especialmente sensíveis, dado o predomínio de povos indígenas, ribeirinhos e populações extrativistas, os quais dependem dos recursos naturais para sobreviver. Essa realidade evidencia a necessidade de ações articuladas de monitoramento, controle e recuperação ambiental onde já se notam índices consideráveis, e a continuidade e aprimoramento de esforços onde os índices são baixos.
Um poluente é qualquer material presente na atmosfera que seja originado de fontes naturais ou antropogênicas, cujo nível de concentração cause efeitos adversos à saúde e ao bem-estar humano, à vida das plantas e dos animais. Esses poluentes também podem alterar o equilíbrio ecológico e físico do planeta. Nas últimas décadas, as concentrações atmosféricas de substâncias perigosas aumentaram significativamente, devido às atividades urbanas e industriais (Fernandes, 2017).
Um ponto de atenção dentro da poluição ambiental são os resíduos sólidos, onde a maioria dos municípios amapaenses realiza a disposição inadequada através de lixões a céu aberto ou em aterros controlados4 (Oliveira, 2014). Um dos principais marcos legislativos relacionados a resíduos sólidos foi a instituição da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em 2010, através da Lei n. 12.305, que discute soluções ambientalmente sustentáveis para parte do problema relacionado à poluição ambiental. A lei também traz os prazos para a extinção de lixões a céu aberto no Brasil (Brasil, 2010).
Quadro X- Municípios da FF-AP com lixão a céu aberto/aterro controlado ou aterro sanitário
Município | Prazo para implementação de aterro sanitário | Status atual |
Oiapoque | 2 de agosto de 2022 | Lixão a céu aberto/ aterro controlado |
Laranjal do Jari | 2 de agosto de 2024 | Lixão a céu aberto/ aterro controlado |
Ferreira Gomes | 2 de agosto de 2024 | Lixão a céu aberto/ aterro controlado |
Serra do Navio | 2 de agosto de 2024 | Lixão a céu aberto/ aterro controlado |
Amapá | 2 de agosto de 2024 | Lixão a céu aberto/ aterro controlado |
Calçoene | 2 de agosto de 2024 | Lixão a céu aberto/ aterro controlado |
Pracuúba | 2 de agosto de 2024 | Não possui |
Pedra Branca do Amapari | Implementado antes do prazo final | Aterro sanitário |
Fonte: Trabalho de pesquisa de campo, 2023-2024. Elaboração e organização: PDIFF, 2024.
Todos os municípios fazem a coleta de resíduos e rejeitos sólidos nas sedes dos municípios; apenas Ferreira Gomes e Calçoene não fazem a coleta de lixo em todas as comunidades.
Outro ponto que merece destaque dentro da poluição ambiental é a exploração de minérios, tanto legalizada quanto ilegal, levando em consideração os impactos ambientais dos grandes projetos de mineração que acompanham o desenvolvimento econômico do Amapá desde a década de 50. Entretanto, dentro da Região Fronteiriça dos Lagos está localizada a área com o registro mais antigo da descoberta de ouro no Amapá: o Garimpo do Lourenço, mais precisamente no município de Calçoene.
Em 1894, logo após a descoberta de ouro, a região foi rapidamente povoada. Ambientalmente, o garimpo do Lourenço está localizado em uma área de divisores de bacias hidrográficas através da Serra Lombarda (PNMT), que divide as nascentes do alto rio Araguari e do rio Oiapoque (Chagas, 2019). Tendo em vista mais de um século de exploração de minério, os impactos ambientais são relatados há vários anos por agentes governamentais e artigos científicos, como o uso indiscriminado de mercúrio, por exemplo. Destaca-se que os rejeitos das atividades garimpeira são despejados diretamente nos cursos d’água sem nenhum tratamento, caindo primeiramente nos pequenos córregos e igarapés (Lima et al, 2015).
Outra problemática ambiental relacionada ao garimpo do Lourenço é o desmatamento. Em 2002, com a criação do PNMT, a área do garimpo ficou rodeada pela UC, e, desde então, são monitoradas grandes ações de desmatamento causadas pela extração irregular de minério. Em fevereiro de 2024, o Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (IEPÉ) divulgou a análise de imagens de satélite que revelaram um aumento de 174% na área afetada pela atividade garimpeira ilegal entre 2020 e 2023. Além disso, foi constatado um aumento de 304% na expansão do garimpo dentro do PNMT na mesma época, abrangendo uma área de 122 hectares, em comparação aos 30 hectares do período anterior. A área desmatada equivale a mais de 170 campos de futebol. O garimpo também atinge a terra indigena Waiãpi.
A mineração teve um papel relevante na formação dos municípios fronteiriços de Serra do Navio e Pedra Branca do Amapari. A exploração de manganês em Serra do Navio, iniciada nos anos 1960, foi um marco para a atividade mineradora na região amazônica, destacando-se como um importante fornecedor durante o período da Guerra Fria. No que diz respeito aos impactos ambientais, a extração de manganês em Serra do Navio apresentou particularidades diferentes das atividades de garimpo na área de Lourenço, uma vez que foi adotada uma abordagem de gestão que integrava aspectos econômicos, sociais e ambientais, algo incomum para a época, dado o estágio incipiente da legislação ambiental no Brasil (Vilhena, 2014).
Entretanto, a gestão ambiental da empresa não conseguiu preservar a biodiversidade do local. Afirma-se que a Icomi deixou um passivo ambiental no município de Serra do Navio, ou seja, depois de uma grande retirada de recursos do solo, a região ficou com pouquíssimas áreas recuperadas e uma pilha de rejeitos de mineração. Aalém disso, foi constatada a presença de ferro (Fe), arsênio (As) e manganês (Mn) nas águas superficiais do municípios, em teores acima dos padrões estabelecidos pela legislação (Chagas, 2010).
A poluição ambiental no estado do Amapá apresenta sérios desafios, impactando a saúde pública e os ecossistemas locais. A inadequada gestão dos resíduos sólidos é uma fraqueza e demanda ação urgente, tendo em vista o prazo final para o fechamento de lixões estabelecido pelo Governo Federal. Além disso, a mineração, tanto legal quanto ilegal, também contribui para a degradação ambiental.
Para retardar esses problemas, existem algumas oportunidades. No caso da gestão de resíduos sólidos, a educação ambiental, em vista da diminuição da produção, e o estímulo para a criação de cooperativas voltadas ao reaproveitamento. No que se refere à mineração, o aumento da fiscalização da exploração ilegal de minérios e reforço das exigências ambientais para mineradoras legalizadas são formas de contornar o problema.
Ambientalmente, os impactos visíveis causados por UHE incluem enchentes, mortandade de peixes, submersão da floresta e formação de lagos. Além disso, observa-se a redução da qualidade da água, aumento de doenças diarreicas, erosão das margens dos rios, perda de áreas de reprodução de animais, eliminação de espaços destinados a usos múltiplos (como a agropecuária familiar) e diminuição de zonas de desova (Brito e Drummond, 2022).
A construção de UHE afeta diretamente a atividade pesqueira. No caso da UHE Ferreira Gomes, pescadores relataram dificuldades após o barramento, destacando a presença de “água suja” no Rio Araguari e a ocorrência de peixes mortos (Santos et al, 2017).
Na UHE Santo Antônio do Jari, os relatos são semelhantes: morte de peixes, árvores e açaizais; diminuição dos peixes e do volume de água do rio; alteração na qualidade da água; desmatamento e destruição da mata ciliar; aumento de mosquitos e da incidência de malária; elevação do nível do rio e erosão de suas margens; contaminação por mercúrio; dificuldade para pescar, caçar e perda de árvores de uso medicinal e comercial (como castanhais), além da redução das terras agricultáveis (Lopes e Brito, 2021).
Em vista dessas problemáticas, importa mencionar a existência do “Plano Sub-regional de Desenvolvimento Sustentável do Xingu” (PDRSRX), que no Brasil destaca-se como exemplo de medida de compensação socioambiental. O PDRSRX compreende os municípios do Pará afetados pela construção da Usina Hidroelétrica de Belo Monte.
No que se refere ao uso dos recursos hídricos na Bacia da Foz do Rio Amazonas, a empresa Petrobras iniciou, em 2014, o processo de licenciamento ambiental para a atividade de perfuração marítima no bloco FZA-M-59. O Parecer Técnico n. 128/2023–Coexp/CGMac/Dilic, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), constatou os impactos e riscos associados à perfuração na costa do município de Oiapoque. Inclusive, a atividade referente ao primeiro poço — com duração estimada de apenas cinco meses — apresentaria riscos significativos, devido aos 28 impactos ambientais operacionais identificados no Estudo de Impacto Ambiental (EIA). A curta duração não minimiza tais impactos, que precisam ser considerados independentemente do tempo previsto para a execução inicial do projeto. Caso a perfuração seja bem-sucedida, a empresa planeja abrir poços adicionais, ampliando o potencial impacto ambiental (Ibama, 2023).
A localização da atividade, a 179 km da costa, traz desafios operacionais devido à elevada sensibilidade ambiental da região e à infraestrutura insuficiente para suporte. As bases de apoio terrestre e aéreo previstas refletem dificuldades logísticas significativas, com a base terrestre em Belém a 830 km de distância e a base aérea em Oiapoque necessitando de reformas. A área de perfuração está situada numa bacia sedimentar altamente sensível, com alta biodiversidade e fenômenos hidrodinâmicos pouco conhecidos, incluindo a presença recente de corais amazônicos (Ibama, 2023).
Em caso de vazamento de óleo, os países vizinhos do Brasil seriam rapidamente afetados, destacando a necessidade de uma organização internacional para resposta a emergências. Os tempos de deslocamento para a resposta aumentariam significativamente após um vazamento, complicando a eficácia das operações de emergência. A estrutura de resposta proposta pela empresa Petrobrás atende às normativas brasileiras, mas as peculiaridades e incertezas da região podem dificultar um combate eficaz a um acidente. A região costeira da Bacia da Foz do Amazonas, com manguezais inacessíveis e alta biodiversidade, requer um Plano de Emergência robusto e adaptado às suas singularidades (Ibama, 2023).
O apontamento de riscos socioambientais coexiste com os interesses econômicos, representativos da estratégia de desenvolvimento do estado do Amapá, que é marcado por baixos indicativos sociais e econômicos. Inserido na chamada Margem Equatorial o projeto de exploração envolve desafios ambientais, sociais e regulatórios, especialmente em virtude da elevada sensibilidade ecológica da região, que abrange áreas costeiras e marinhas entre o Amapá e o Rio Grande do Norte.
A Petrobras planeja investir US$ 3 bilhões até 2029, com a perfuração de 15 poços, o projeto promete impactos positivos, como a geração de empregos diretos e indiretos, aumento da arrecadação fiscal e estímulo ao desenvolvimento regional. Além disso, estão previstas compensações socioeconômicas, como programas de educação ambiental, ações de proteção à biodiversidade, monitoramento da fauna e gestão de resíduos, bem como medidas emergenciais para capacidade de resposta ágeis (Petrobrás, 2024).
Apesar do potencial de avanço energético e econômico, a viabilidade do projeto depende do licenciamento ambiental pelo IBAMA e da aceitação social, que será discutida por meio de audiências públicas e análises técnicas. O equilíbrio entre exploração segura e responsabilidade ambiental será determinante para a legitimidade e continuidade da iniciativa.
No Amapá, os impactos das mudanças climáticas vêm se intensificando progressivamente, sendo observados por meio de alterações nos regimes pluviométricos, prolongamento de estiagens e aumento na frequência de eventos extremos, como enchentes e queimadas. As populações mais vulneráveis a esses fenômenos são as comunidades tradicionais (indígenas, ribeirinhas e quilombolas), que enfrentam desequilíbrios em ecossistemas sensíveis (como os manguezais), insegurança alimentar e agravamento de condições de saúde pública (GEA, 2025).
O estado do Amapá configura-se como um estado costeiro, com 11 de seus 16 municípios integrados à Zona Costeira do Amapá (ZCEA), sendo quatro deles localizados na FF-AP: Oiapoque, Calçoene, Amapá e Pracuúba (Junior et al., 2020). As mudanças climáticas, aliadas a pressões antrópicas, contribuem para a intensificação de desastres naturais, como inundações e erosões costeiras (Santos, 2006; Nicholls et al., 2007; Nicholls & Cazenave, 2010). Projeções indicam que tais mudanças tendem a agravar riscos preexistentes, sobretudo no que diz respeito ao avanço do nível do mar e suas implicações para os sistemas socioecológicos costeiros, como a instrusão de água salgada em manguezais (IPCC, 2022).
Em relação aos riscos de inundações, enxurradas e alagamentos na FF-AP, os municípios de Laranjal do Jari, Amapá, Calçoene e Ferreira Gomes apresentam índices elevados, com destaque para Laranjal do Jari, que figura na categoria de risco muito alto, com valor de 0,96 (em uma escala de 0 a 1,00). Serra do Navio é o único município com risco considerado baixo (0,38), enquanto os demais municípios da FF-AP apresentam nível médio, variando entre 0,40 e 0,59 (AdaptaBrasil/MCTI, 2021).
Em Laranjal do Jari, além do risco elevado de inundações, comunidades como o Quilombo São José e a Comunidade do Santo Antônio têm relatado impactos significativos sobre seus modos de vida. Dentre os principais efeitos observados estão a redução da disponibilidade hídrica, a mortalidade de açaizais e castanheiras, bem como o agravamento de problemas respiratórios associados ao aumento das temperaturas (Azevedo et al., 2023). Importa destacar, no entanto, que as temperaturas extremas não afetam somente o município supracitado. Além disso, estudos apontam alterações nos padrões de frutificação de espécies florestais nas comunidades fluviais do Vale do Jari, como resultado das mudanças no clima (Silva et al., 2024).
Ao longo deste relatório, é recorrente o uso do termo “mudanças climáticas”, devido à transversalidade que afeta múltiplos setores. No caso da agricultura, identificaram-se impactos diretos como a redução da produtividade agrícola, atrasos nos períodos de plantio e colheita e comprometimento da qualidade do solo. Esses fatores contribuem com a insegurança alimentar das populações e o enfraquecimento da economia (Trabalho de Campo, 2023/2024).
INTER-RELAÇÕES DE MEIO AMBIENTE NA FAIXA DE FRONTEIRA AMAPAENSE
A maioria das unidades de conservação (UC) amapaenses cobrem mais de um município e demonstram uma complexa interação para a manutenção da biodiversidade local. O Parque Nacional do Cabo Orange (PNCO) e Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque (PNMT), por exemplo, conectam diferentes áreas, promovendo turismo sustentável e enfrentando desafios comuns, como a exploração ilegal de recursos naturais (MMA, 2024).
A Floresta Estadual do Amapá (FLOTA) expõe a necessidade de práticas integradas de manejo florestal, enquanto a Reserva Biológica (REBIO), Estação Ecológica (ESEC) e a Floresta Nacional do Amapá (FLONA) demandam esforços conjuntos para conservação e educação ambiental. A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Seringal Triunfo destaca a importância da colaboração público-privada.
A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Iratapuru e a Reserva Extrativista (RESEX) do Rio Cajari, junto com a ESEC do Jari, exemplificam a necessidade de políticas integradas e planos de manejo eficazes para equilibrar conservação ambiental e melhoria das condições de vida das populações tradicionais. A cooperação entre municípios é necessária para a eficácia das políticas de conservação e sustentabilidade na região.
O PNMT e o Parque Amazônico da Guiana, situados às margens do rio Oiapoque, demonstram um alto grau de interação entre as comunidades brasileiras e francesas, apesar das diferenças de soberania, nacionalidade e etnicidade (Martins et al, 2015). A proximidade física e a intensa movimentação de pessoas tornam os territórios próximos. A comunidade indígena de Camopi, na Guiana Francesa, supre parcialmente as necessidades de educação e saúde do lado brasileiro, enquanto a Vila Brasil, atende o lado francês com comércio de alimentos e bebidas. A cooperação Brasil-França para a gestão do rio é dificultada pela falta de recursos financeiros, o que impacta a efetividade de estratégias de conservação e desenvolvimento sustentável nos dois parques.
A gestão dos recursos hídricos, no Amapá, entre países diferentes (Rio Oiapoque, entre Amapá e Guiana Francesa; Rio Jari, entre Amapá e Suriname) e estados da federação distintos (Rio Jari, entre Amapá e Pará) exige planejamento para evitar ou minimizar conflitos políticos. O estado do Amapá é uma “ilha”, rodeado, conforme supracitado, pelo Rio Jari, Rio Oiapoque e pelo Oceano Atlântico. As análises sobre recursos hídricos podem ser pautadas em três eixos: o impacto das hidrelétricas no meio ambiente e na vida da população local; a exploração de recursos hídricos; e ações de cooperação para a gestão hídrica.
Foram criados dois importantes instrumentos para dialogar sobre os assuntos em comum entre a República Francesa e a República Federativa do Brasil, sendo a Comissão Mista de Cooperação Transfronteiriça (CMT) e o Conselho do Rio, consolidado com a Declaração de Intenções, assinada em Paris em 2012. Tratam-se de instrumentos essenciais para abordar questões ambientais e hídricas, promovendo cooperação na regulamentação e no tratamento de resíduos.
A CMT trata também de assuntos relacionados ao meio ambiente, como poluição ambiental, gestão hídrica, áreas de preservação, resíduos e reciclagem, enquanto o Conselho do Rio trata a temática com foco no impacto dos resíduos sólidos no rio Oiapoque e na cooperação para a regulamentação e mutualizar as instalações de tratamento de resíduos.
ANÁLISE SWOT/FOFA DE MEIO AMBIENTE
- FORÇAS
- FRAQUEZAS
- OPORTUNIDADES
- AMEAÇAS
- Áreas de proteção ambiental;
- Projetos sociais e ambientais em parceria com a FUNDAÇÃO JARI;
- Porjetos voltados para a educação ambiental;
- Aterro sanitário em funcionamento (em Pedra Branca do Amapari);
- Escritórios do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio);
- Conselho Municipal de Meio Ambiente ativo (em Serra do Navio);
- Oferta de curso de guarda-parque;
- Apoio técnico-científico do TEDPLAN/UNIFAP com diagnósticos e planejamento em saneamento;
- Agentes Ambientais Indigenas;
- Lixões a céu aberto;
- Inexistência de coleta seletiva e reciclagem;
- Inexistência ou deficiência de coleta de lixo;
- Queima de resíduos ou descarte em locais inadequados;
- Ausência de planos de manejo nas unidades de conservação;
- Déficit de recursos humanos para fiscalização e autuação ambiental;
- Infraestrutura física e de equipamentos inadequada para o gerenciamento ambiental;
- “Fundo do Meio Ambiente” desativado;
- Ausência de políticas de compensação socioambiental para populações atingidas por barragens;
- Impactos ambientais decorrentes da instalação de hidrelétricas;
- Inexistência de lixão ou aterro sanitário em Pracuúba;
- Instabilidade na oferta do serviço como o licenciamento ambiental e o Cadastro Ambiental Rural;
- Educação ambiental fragilizada, sem execução de ações continuadas pelas gestões municipais;
- Criação de cooperativas de reciclagem como alternativa de geração de renda e inclusão socioambiental;
- Capacitação técnica e desenvolvimento de projetos sustentáveis em parceria com instituições/empresas;
- Programas Agente Jovem Ambiental;
- Criação de cooperativas de gestão de resíduos sólidos;
- Centro de Formação Profissional em Meio Ambiente;
- Projetos de recuperação de áreas degradadas e Pagamento por Serviços Ambientais;
- Implantação de projetos de geração de renda com venda de materiais recicláveis;
- Garimpo ilegal e extração mineral desordenada;
- Mudanças climáticas;
- Poluição ambiental;
- Poluição hídrica provocada por rejeitos de minérios, necrochorume e descarte irregular de resíduos sólidos;
- Pesca predatória e desrespeito aos período de defeso;
- Pontos de descarte irregular (“lixeiras viciadas”);
- Riscos biológicos e sanitários, associados à má gestão de resíduos, com potencial para surtos de doenças e contaminações;
- Mortandade de peixes associada à abertura abrupta de comportas das hidrelétricas;

