Professora do Campus Binacional defende tese de doutorado em História na Universidade Federal de Santa Catarina

Sem títuloNo dia 15 de abril a professora de História Indígena Carina Santos de Almeida, do Curso Licenciatura Intercultural Indígena, defendeu sua tese de doutorado “Tempo, memória e narrativa Kaingang no oeste catarinense: a tradição Kaingang e a proteção tutelar no contexto da transformação da paisagem na Terra Indígena Xapecó” que vem somar-se aos estudos em História Indígena, Etno-História e História Ambiental no Brasil. Em suas mais de quatrocentas páginas considerou as relações do povo Kaingang com o meio ambiente a partir das descrições de cunho etnográfico concernentes aos séculos XVIII e XIX como também se debruçou sobre os meandros da atuação do indigenismo brasileiro por meio das ações de proteção tutelar promovidas pelas agências do SPI (1910 – 1967) e da FUNAI (1967 – atual) ao longo do século XX.

O povo Kaingang pertence ao tronco-linguístico Macro-Jê e constitui um dos maiores grupos indígenas em população no país, assim, tradicionalmente se espacializa por todo o sul do Brasil, desde São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Neste contexto, a tese vem destacar que o SPI e a FUNAI foram responsáveis pela inserção das terras indígenas na lógica do capitalismo e do nacional-desenvolvimentismo brasileiros, sendo as terras dos índios meridionais drasticamente impactadas pelo pulsante desflorestamento para atender a indústria madeireira.

Na Terra Indígena Xapecó, situada no oeste catarinense, lócus central das análises e discussões da pesquisa, a tese revela que a atuação dos órgãos indigenistas possibilitou o desmatamento de suas florestas por meio da exploração do patrimônio indígena e da “geração da renda indígena”. O extermínio das florestas impactou a relação sociedade e ambiente e impôs novos desafios ao habitus social Kaingang. Esse processo de transformação da paisagem foi promovido in loco pelos chefes encarregados de Posto que além de exercer o poder autoritário a partir de relações assimétricas de poder, instituíram dispositivos disciplinares e punitivos de cunho penal, como a Polícia Indígena, a cadeia e o “suplício no tronco”. A violência física e simbólica foram elementos que emergiram nas análises da historiadora, contudo, em tempos de ditadura militar no Brasil e num cenário dramático vivenciado cotidianamente pelos povos indígenas, emergiu o protagonismo Kaingang no contexto do movimento indígena nacional em fins dos anos 1970.

A tese da historiadora ressalta a importância do pinhalão (conjunto fisionômico constituído principalmente pela árvore conhecida como pinheiro Araucária, que produz um alimento chamado pinhão, base alimentar dos povos indígenas no sul do Brasil) nas terras dos Kaingang e destaca os impactos na habitus social decorrentes da ausência deste conjunto florístico e faunístico na contemporaneidade. Atualmente, ultrapassada a proteção tutelar às avessas, a performance Kaingang ressignifica as relações com o ambiente à medida que reafirma a identidade ameríndia como exemplo de resistência, liberdade e autonomia. As experiências dos índios Kaingang no que se refere a questão ambiental (desflorestamento e inserção do agronegócio) acenam para o perigo que os projetos nacional-desenvolvimentistas representam nas instâncias da tradição e de vida das sociedades ameríndias na Amazônia e sobretudo no Grão-Amapá quando estes povos são desrespeitados em seus modos de vida.

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